Saques e passagem do tempo afetam torres funerárias pré-incaicas na Bolívia

Sábado, 16 Junho 2018 21:18 Publicado em Internacional

Aos pés de morros que bordejam o Lago Titicaca, nos Andes bolivianos, há cerca de 300 'chullpas' ou torres funerárias pré-incaicas, derruídas pela passagem do tempo ou por saques, que começaram a ser reedificadas pelos locais. As "chullpas" são torres de pedra e barro edificadas durante os domínios aimarás, entre os anos 1000 e 1400, após a queda da cultura de Tiauanaco, antes da conquista pelo império inca.

Perto do povoado de Quehuaya, mais de 70 km ao oeste de La Paz, está o sítio arqueológico de Qala Uta (Casa de Pedra em aimará), onde foram encontrados rastros destas construções usadas para enterrar, em posição fetal e em cestos, nobres, sacerdotes ou xamãs, militares e pessoas ricas. Seus corpos eram colocados junto com peças de cerâmica, como vasos e pratos, e objetos de ouro e prata.

As torres funerárias têm dimensões similares: quadrangulares, de dois metros de largura e até 3,5 metros de altura, com duas câmaras interiores, uma espécie de dois andares. Em cada câmara eram colocados de dois a quatro mortos e sempre eram construídas a pouca distância da casa da família. No lugar existia uma populosa cidadela do reino aimara Pacaje, que se dedicava a plantar favas, batatas e quinoa. Seus habitantes atuais, também aimaras, perderam o costume ancestral de construir essas torres e carregam seus mortos em caixões até cemitérios públicos. "Esta é uma cidadela com quase 300 estruturas, são chullpares, entre habitacionais e outros espaços de construções, construídos totalmente com pedra, desde as bases até o teto", detalha à AFP Isaac Callizaya, responsável turístico do município local.

Em Quehuaya foram encontradas chullpas em uma extensão de dois quilômetros quadrados, o que faz do lugar um dos maiores chullpares da Bolívia. As três centenas de torres funerárias estão destruídas e só se vê pequenas paredes quadrangulares de pedra. Oscar Limachi, um dos envolvidos nas tarefas de restauração, explica à AFP que "o tempo e a chuva" provocaram sua destruição.

Apesar de ter sido declarado sítio arqueológico na década de 1930, não recebeu o cuidado necessário. O diretor da Unidade Nacional de Arqueologia, José Luis Paz, também indica que no lugar houve um evidente saque de peças valiosas que os parentes colocavam junto a seus mortos. "O saque foi desde a colônia", explica o funcionário à AFP.

"Nossos ancestrais vivem aqui"

Com o propósito de recuperar a memória coletiva, estudar os hábitos de vida do reino Pacaje e transformar o lugar em um sítio turístico, foram reconstruídas seis chullpas com apoio financeiro da Suíça, que contribuiu com 50.000 dólares, em coordenação com o Ministério da Cultura da Bolívia. O governo boliviano tem previsto reconstruir mais torres funerárias e prometeu recursos econômicos.

Limachi relata que ele, seus pais e seus avós sempre viram as torres funerárias com respeito, e inclusive temor, pois eram lugares sagrados. "Nossos ancestrais vivem aqui", diz, evocando a crença dos aimaras de que os espíritos de seus mortos não os abandonam. "Nós nunca pudemos remexer, porque nos ataca psicologicamente, afeta o espírito da pessoas", explica. Antes de começar a reconstrução, em 2017, foram realizadas cerimônias religiosas com "yatiris" (sacerdotes andinos) para pedir autorização aos espíritos que vagam pelo local. "Sem cerimônias podemos ficar doentes", argumenta Limachi.

Fonte: CP

Última modificação em Sábado, 16 Junho 2018 21:21